Sobre o esquecimento

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O esquecimento ou a perda de memória, num primeiro momento, é algo que pode nos assustar ou mesmo nos assombrar. Afinal, sabemos quem somos graças a nossa memória.  E esse medo parece ganhar força à medida que envelhecemos. Mas por que esquecemos? Será que o esquecimento é algo intrínseco ao envelhecimento? O que podemos fazer diante disso?

O esquecimento é algo que está presente ao longo de toda a nossa vida. A criança, o adolescente, o adulto e o idoso esquecem. Sabemos que existem alguns fatores que contribuem para o esquecimento, mas nesse momento, lançaremos luz apenas sobre um deles, talvez um dos mais importantes, que é o fator emocional.

Segundo Freud somos aquilo que lembramos e também aquilo que esquecemos. De acordo com o autor o esquecimento aponta para algo que nos escapa; o esquecimento fala de algo sobre nós mesmos, sobre o nosso mundo emocional (Freud, 1901). Muitas vezes encobrimos situações desprazerosas, colocando um véu por cima delas, sem nos dar conta disso. Mas essas memórias existem e têm força.

A neurociência aponta a falta da atenção como uma das causas da ineficiência da nossa memória e Freud nos diz que uma perturbação da atenção pode ocorrer por um pensamento que se impõe e demanda consideração (Freud, 1901). Ele nos diz que o estado de atenção é alterado por uma ideia que insiste em aparecer.

O esquecimento faz parte da dinâmica do nosso aparelho psíquico, precisamos esquecer para seguir a diante, pois existem memórias de conteúdos que não conseguimos representar e também por isso recalcamos, ou seja, as encobrimos (Freud, 1898). O grande problema é quando o mecanismo do recalque ultrapassa o limite da saúde psíquica e isso compromete o nosso desempenho no dia a dia. Aí precisamos entender o que está acontecendo.

Algo que foi esquecido, mas, ao mesmo tempo, insiste em aparecer, compromete a nossa atenção no momento presente. Se não temos atenção ao momento presente, não temos como vive-lo de forma a registrá-lo. Quando quisermos retomar algum registro desse momento, ele não estará na nossa mente porque não estávamos presentes, no momento em que ele aconteceu.

É importante estarmos atentos ao que nos acontece, aos nossos pensamentos, aos nossos sentimentos. Eles falam conosco e precisamos escutá-los. Se não o fizermos, as suas vozes aumentam tanto que nos tornamos surdos para todo o resto, desconectados da vida e cada vez mais à margem de nós mesmos, nos tornando seres incoerentes, inadequados e esquecidos, principalmente, esquecidos de nós e por nós mesmos.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud [ESB]. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

_________. (1893-1895) Estudos sobre a histeria. Vol. II.

_________. (1898) O mecanismo psíquico do esquecimento. Vol. III.

_________. (1901) Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Vol. VI.

GUERREIRO, T. (texto do estado de mente alerta ou algum outro trabalho onde você menciona essa questão)

Danielle Pimentel

Danielle Pimentel

Psicóloga em Oficina da memória
Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio.Especialista em Teoria e Clínica Psicanalítica pelo CEPCOP – USU. Especialista em Geriatria e Gerontologia pela Universidade Aberta da Terceira Idade – UnATI/UERJ.Curso de Extensão em Demência e Outros Transtornos Mentais na Velhice – Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IPUB/UFRJ.
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